Em agosto do ano passado, a Stellantis deu um passo inédito no Aftermarket Automotivo brasileiro ao inaugurar, em Osasco (SP), o seu Centro de Desmontagem Veicular Circular AutoPeças, primeira iniciativa industrial estruturada por uma montadora na América do Sul voltada ao reaproveitamento de peças de veículos com baixa definitiva.
Mais do que um movimento isolado, a entrada de uma fabricante de automóveis neste mercado sinalizou o amadurecimento da economia circular no setor automotivo nacional. A iniciativa também reforçou uma mudança estrutural na cadeia de reposição, combinando rastreabilidade, conformidade regulatória e estratégia comercial para dar escala ao reaproveitamento de peças usadas.
Este amadurecimento se refletiu rapidamente na aceitação do mercado. Em pouco mais de um trimestre de operação, o centro já desmontou 370 veículos, gerou mais de 6 mil peças destinadas à comercialização e vendeu mais de 1,6 mil componentes, com atuação tanto na loja física quanto em marketplaces digitais.
Em entrevista exclusiva ao Novo Varejo Automotivo, o Vice-presidente Sênior de Peças e Serviços para a América do Sul da Stellantis, Paulo Solti, detalhou o perfil dos compradores e apontou as categorias mais demandadas pelos consumidores.
Na conversa, o executivo projetou também os próximos passos da operação, incluindo o lançamento do e-commerce próprio da Circular AutoPeças, e destacou a importância da Lei 12.977/2014 (Lei do Desmonte) como pilar jurídico fundamental para garantir segurança e credibilidade ao mercado. Confira a seguir a íntegra da entrevista.
Novo Varejo – Nos primeiros meses de operação do Centro de Desmontagem Veicular Circular AutoPeças, quem tem sido o principal comprador das peças comercializadas? Estamos falando majoritariamente de consumidores finais, oficinas independentes, lojistas de autopeças ou outros perfis profissionais?
Paulo Solti – Um misto entre consumidores finais e oficinas independentes credenciadas pelo Detran.
Novo Varejo – Você vê o consumidor brasileiro mais maduro para o consumo de peças usadas? O fato de as peças receberem a chancela da marca Stellantis contribui para a maior aceitação por parte do mercado?
Paulo Solti – Sim, há sinais claros de que o consumidor brasileiro está mais maduro em relação ao uso de peças reutilizadas. Ainda existem desafios, como o histórico de comercialização de itens sem procedência comprovada, mas o cenário vem evoluindo à medida que aumentam a informação e a confiança no processo. Nesse contexto, a chancela de uma marca sólida como a Stellantis contribui de forma relevante para a aceitação do mercado. No entanto, mais do que o nome da marca, fatores como rastreabilidade, controle de qualidade e garantia de origem são determinantes na decisão de compra. A segurança do consumidor é prioridade absoluta. Todas as peças passam por rigorosos processos de triagem, inspeção técnica e testes de qualidade. Além disso, a comercialização segue integralmente as exigências de rastreabilidade e segurança estabelecidas pelo Detran, assegurando conformidade com a legislação e plenas condições de uso.
Novo Varejo – Entre os mais de seis mil componentes já destinados à comercialização, quais categorias de peças concentram o maior volume de vendas até aqui?
Paulo Solti – O maior volume de vendas concentra-se em motores, câmbios, faróis, lanternas e componentes de lataria.
Novo Varejo – O comportamento de compra do público da loja física da Circular AutoPeças difere do público que compra pelo Mercado Livre? Há diferenças claras em tipo de peça, ticket médio, frequência ou perfil do comprador?
Paulo Solti – Observamos comportamentos distintos por canal. Na loja física, a demanda se concentra em motores, câmbios e grandes componentes de lataria, itens de maior valor agregado e menor impulsividade de compra. Já no ambiente online, especialmente em marketplaces, predominam faróis e lanternas, produtos com ticket médio menor e decisão mais rápida. Esse movimento mostra como cada canal atende necessidades diferentes do cliente e orienta nossa estratégia comercial.
Novo Varejo – Existem restrições técnicas, regulatórias ou estratégicas em relação ao tipo de peças que podem ser comercializadas pela Circular AutoPeças? Há categorias que, por segurança, homologação ou posicionamento de marca, ficam fora do portfólio?
Paulo Solti – Existem restrições técnicas, regulatórias e estratégicas para a comercialização de peças usadas no Brasil, especialmente no caso de empresas de desmonte como a Circular AutoPeças. A atividade é regida principalmente pela Lei 12.977/2014 (Lei do Desmonte), regulamentada pelos Detrans estaduais. Somente veículos com baixa definitiva no Detran podem ser desmontados, e o processo deve ser realizado por empresa credenciada. Além disso, todas as peças reaproveitáveis precisam ser rastreáveis, identificadas, catalogadas e vinculadas ao veículo de origem, garantindo transparência e segurança ao consumidor. Não podem ser comercializados itens de segurança, componentes com adulteração ou dano estrutural, nem peças sem rastreabilidade comprovada.
Novo Varejo – O Centro foi projetado para desmontar até 8 mil veículos por ano. Com base na curva atual de operação, quais são as expectativas de crescimento do estoque disponível para 2026, tanto em volume quanto em diversidade de componentes?
Paulo Solti – A evolução da operação seguirá o comportamento da demanda do mercado, sempre respeitando integralmente os critérios técnicos e regulatórios estabelecidos pela Lei do Desmonte. Mais do que um crescimento apenas em volume, esperamos um avanço relevante na diversidade do estoque, com maior variedade de modelos, versões e componentes eletrônicos, acompanhando a evolução tecnológica da frota circulante no Brasil. Essa ampliação aumenta nossa capacidade de atender diferentes perfis de consumidores e oficinas, reforçando a proposta de economia circular com rastreabilidade, segurança e qualidade. Para 2026, o objetivo é combinar ganho de escala operacional com eficiência comercial, sustentando um crescimento consistente tanto em volume quanto em valor agregado das peças disponibilizadas ao mercado.
Novo Varejo – Existe uma previsão para a inauguração do e-commerce próprio da Circular AutoPeças? Quais seriam, na visão da Stellantis, os principais benefícios desse modelo em relação a um marketplace como o Mercado Livre, especialmente em questões como dados do cliente, sortimento, margem e relacionamento com o varejo?
Paulo Solti – A Circular AutoPeças já opera hoje em múltiplos canais de venda. Contamos com atendimento direto no balcão da nossa loja física, comercialização por meio do Mercado Livre, que nos garante grande alcance e escala, e, em breve, lançaremos nosso e-commerce próprio. Esse próximo passo é estratégico para ampliar ainda mais o acesso de consumidores e oficinas às peças provenientes do nosso centro de desmontagem, sempre com rastreabilidade, conformidade regulatória e padrão de qualidade alinhado à Stellantis. Na visão da companhia, o canal proprietário complementa e não substitui a atuação em marketplaces. Cada formato cumpre um papel específico dentro da estratégia omnichannel. Enquanto plataformas como o Mercado Livre oferecem visibilidade e volume, o e-commerce próprio proporciona maior gestão estratégica do negócio. Com o canal próprio, passamos a ter acesso mais aprofundado a dados sobre comportamento de compra, recorrência e perfil de demanda, o que contribui para decisões mais assertivas de sortimento, estoque e precificação, além de potencializar a gestão de margem. Também fortalece o relacionamento direto com oficinas e consumidores finais, abrindo espaço para programas de fidelização, ofertas segmentadas e um atendimento mais consultivo. Assim, o lançamento do e-commerce representa mais um avanço na consolidação da Circular AutoPeças, equilibrando escala, rentabilidade e proximidade com o cliente, dentro de uma lógica de crescimento sustentável e economia circular.
